9 de jun. de 2016

Estava relendo algumas páginas do escritor que mais do que ninguém me influenciou, Rubem Fonseca... e me deparei com o seguinte trecho num diálogo...

- Há certas pessoas que precisam de um empreguinho garantido no governo e você é uma delas.

Se essa sentença fosse dirigida a mim, a única coisa que eu responderia era: "sou mesmo".



7 de jun. de 2016

de uma ex-aluna, tentando dizer o que acha bonito em mim
 
sua barbaa, seu modo de ensinar, seu carisma, sua felicidade q todas as vzs de manhã eu gostava de ver ela estampada com um sorriso no seu rosto, espero te ver novamente professor.



18 de mai. de 2016

Mais sobre a HP

lembro que, num dos congressos que participei, em Vitória, Espírito Santo, eu estava transitando pelo campus onde rolava o evento e parei numa banquinha de livros do MR-8 (Movimento Revolucionário 8 de Outubro, organização que editava o Hora do Povo). não tinha ninguém num primeiro momento; deviam ter saído por uns instantes. folheei os livros e logo apareceram dois gigantões. tudo bem que sou pequeno, mas eles mesmos eram muito mais altos que a média dos sujeitos altos que conheço. acho que comprei algum livreto de Stálin e, brincando, perguntei

- com o que o MR-8 alimenta vocês para serem tão grandes assim?

- com a verdade, disse um deles.

- boa resposta, falei. mas o que pensei de fato foi: com Pinóquio, crescia só o nariz...



12 de mai. de 2016

O crepúsculo de um longo dia

Ascende um neoliberal à presidência e as sensações são diversas. Para mim, particularmente, parece o crepúsculo de um longo dia. Desde meus 16 anos, quando Lula foi eleito, até hoje, fiz a opção de defender esse que, como diziam os chilenos de Allende, pode ser um governo de merda, "mas é o NOSSO governo de merda". Foram muitas horas de sono perdida, muitos dias sem comer, muito lazer do qual abri mão, tudo isso a custo zero - aliás, a custo negativo, já que grande parte dos gastos éramos nós mesmos que precisávamos arcar. Deixei a militância, mas permaneci na defesa do projeto ali construído, considerando-me pessoalmente responsável por ele, espírito em muito decorrente da disciplina absorvida nos tempos de Partido Comunista. Agora, apesar de alguma sensação de derrota, sinto-me, na verdade, mais leve. Não foi fácil ser de uma geração que cresceu com a responsabilidade de defender um projeto que não foi por ela construído. Não sei o que vem pela frente, mas, ciente de que é preciso lutar sempre, o que sinto é um grande peso saindo de minhas costas.


 

10 de mai. de 2016

Lembranças da HP

Estava dia desses vasculhando baús vendo a coleção de jornais Hora do Povo, que eu comprava na adolescência - era o mais acessível: 50 centavos nas bancas da Av. Rio Branco. Uma das coisas que me agradava no jornal era sua abordagem radical, de esquerda, e com manchetes elaboradas, ousadas e algumas com belo tom de humor, o que era raro naqueles tempos pré-redes sociais.

Agora joguei todos fora, mas não posso deixar de rememorar algumas daquelas manchetes.


Porrada nos cornos quebra os dentes do Império, um dia após o 11 de setembro.

Centenas de vândalos ianques já no inferno. O resto a caminho, sobre o terror que os invasores americanos estavam passando nas primeiras semanas no Iraque, com derrotas sucessivas.

Comandante das tropas ianque é mandado pela mulher, mais uma postagem criticando os invasores americanos, com a veia machista que era própria da época.

Iraque não é puteiro, diz o delegado de costumes de Bagdá, também sobre as derrotas sofridas pelo exército americano no país. O subtítulo dizia: é por isso que a Ana Paula Padrão não põe os pés lá.

Otavinho pego no elevador de serviço com o Cabo Hide, sobre o apoio empolgado da Folha de SP (cujo dono é o Otávio Frias Filho, pai do editor Otavinho) à invasão americana.

Otavinho reivindica a Lula embaixada na Disneylândia, sobre as futilidades do editor da Folha.

Nem todas as manchetes eram em tom de piada. Algumas eram sérias, clássicas, com estilo. A minha favorita foi a que usaram quando o presidente do PSDB foi enquadrado num escândalo e abandonado pelo partido que presidia: PSDB suicida seu presidente e leva flores ao funeral.


2 de mai. de 2016

o corte

acordo tarde, os meus olhos ardem
no encontro com o sol (eu estou só)
não há outro lugar pra me abrigar

tão forte o corte que sinto no corpo
tão corpórea dor de púrpura cor
outro lugar não sei (eu quero me esconder)

no universo que conspira ao meu redor
nesse verso que suspiro com temor
o inverso do que eu pretendia ser
alvorece e só me resta obedecer

acordo tarde, os meus olhos ardem
no encontro com o sol (ainda estou só)
não há outro lugar pra me abrigar

se já é tarde, se o dia se perde
se você se foi, se acabou
o corte já fechou
mas a dor não passou


23 de abr. de 2016

Eu tenho sangue de barata o suficiente para ver em que velhos amigos se transformaram. Mas nem sempre suas mães o tem. Uma delas me confidenciou:

No dia seguinte ao discurso estarrecedor de Bolsonaro, ele postou varias coisas apoiando-o e defendendo-o. Estou arrasada. Tive que excluí-lo do facebook porque me doía demais a cada postagem q ele fazia...


22 de abr. de 2016

Fui perguntado:

- Mas nessa época que você estava na merda, é porque fazia o que os outros queriam?


Respondi:


- Não, era porque fazia o que eu queria. Quando passei a fazer o que os outros queriam, minha vida melhorou bastante.



21 de abr. de 2016







Porra, Plutão Já Foi Planeta é uma banda legal, mas não consigo vê-los sendo tratado por Paulo Ricardo como a cereja do bolo no programa Superstar...

Vou agora mesmo ligar pros caras e retomar nosso projeto Pedra Fundamental.

Não dá pro mundo continuar assim.



18 de abr. de 2016

Ouvi uma garota dizer certa vez que não queria mais entrar pela porta dos fundos como se fosse uma indigente. Aquela vida de disfarces não lhe servia mais. Não falei nada, mas pensei que entrar pela porta dos fundos não é tão mal… apesar de ser algo marginalizado, minimizado, isso permite que tenhamos outra perspectiva do ambiente. No fim das contas,acho que qualquer percepção que fuja ao pensamento da maioria (nem sempre) pensante pode ser mais distinta, até privilegiada. Ninguém aqui é especial, mas pode tentar.




17 de abr. de 2016

Nesses tempos de penumbra na política, minha vontade era não ter emprego, namorada, mãe, amigos e nem propriedades. Eu seria o pária cujo destino a vida há muito me apontou mas que me recusei a aceitar. Acabaria com a vida de deputados torturadores, de policiais estupradores, de imbecis de toda ordem. Não resolveria porra nenhuma, nem era minha intenção resolver. Mas agora isso é apenas um lampejo de fúria. A hora de fazer isso já passou.

15 de abr. de 2016

De um amigo filósofo - ou um filósofo amigo?

A verdadeira vida surge a partir de um “Por quê?”. No momento em que essa indagação se mostra ausente, então eu só existo, simplesmente existo. Então, me rebaixo a mesma condição de uma pedra, de um vegetal ou, o que é pior, de um animal com cabrestos!


14 de abr. de 2016

Nas experiências presentes, receio, estamos sempre "ausentes": nelas não temos nosso coração - para elas não temos ouvidos. Antes (como alguém divinamente disperso e imerso em si, a quem os sinos acabam de estrondear no ouvido as doze batidas do meio-dia, e súbito acorda e se pergunta "o que foi que soou?"), também nós por vezes abrimos depois os ouvidos e perguntamos, surpresos e perplexos inteiramente, "o que foi que vivemos?", e também "quem somos realmente?"...

E em seguida contamos, depois, as doze vibrantes batidas da nossa vivência, da nossa vida, nosso ser - ah! e contamos errado... Pois continuamos necessariamente estranhos a nós mesmos, não nos compreendemos, temos que nos mal-entender, a nós se aplicará para sempre a frase: "cada qual é o mais distante de si mesmo"...........


nietzsche



9 de abr. de 2016

Não aconteceu

- Fala, meu amigo, que saudade! Vamos nos encontrar essa semana? A gente senta em algum lugar, como há dez anos, come alguma merda, fala bem das garotas, fala mal da rapaziada, faz novas juras de amizade que justificarão reencontros daqui a mais dez anos.

- Combinado. Sexta-feira nos vemos!


 

7 de abr. de 2016

Noites passadas


A noite vinha, e com ela o frio,
a chuva descia pela vidraça.
Eu me lembro agora, nesses dias bons,
com a consciência de que tudo passa.

A noite vai, e o dia surge,
logo o sol já esquenta nossa pele.
Em meu ouvido um chamado urge,
me chamando apenas pela letra L.

E a noite volta, mas eu não volto mais,
não quero ter o que deixei pra trás
nem quero continuar a me esconder do dia.

Não quero lembrar das coisas que dizia,
nem reencontrar tudo de que eu fugia
naquele tempo que eu não tinha paz.





30 de mar. de 2016

A gente passa a vida viajando para um dia perceber que não havia nada a procurar lá fora... é de clichês como esse que a vida se recheia...



25 de mar. de 2016

Há uma maldade no tempo, nas coisas que ele destrói...
Como um enfraquecimento daquilo que se constrói e não se sustenta mais.

 

23 de mar. de 2016

Há dez dias foi aniversário de minha mãe,
sobre quem nunca escrevi qualquer resposta.
Então fica isso aqui como dedicatória e lembrança
para minha mãe,
a que primeiro me viu sorrir,
a quem primeiro fiz chorar.

22 de mar. de 2016

Sinto raiva do tempo, mas adoro esse vento que ele insiste em soprar...

21 de mar. de 2016

- Trabalhar com mulher deve ser um saco, né Leon?, perguntou-me minha chefe.

Na verdade, eu adoro. Não gosto de homens, nunca gostei. Mas também não posso ser tão explícito, senão parecerei um tarado ou qualquer coisa assim.

- Pois é, Milena, mas a gente se acostuma, hahaha!



8 de fev. de 2016

are you talkin' to me?




hoje completa mais uma decada, entre outras tres ou quatro, o filme taxi driver, que ate hoje nao sei se me ajudou ou me atrapalhou na ocasiao em que o vi a primeira vez - uma decada atras -, fugido, jubilado, desempregado, drogado, e, como travis, ansioso por encontrar alternativas para voltar a vida social... quando nem taxista eu pude ser, pensei que era meu fim. estava a caminho de tornar-me um pária definitivo. mas apareceu aquele maluco, que eu conhecia de aventuras políticas juvenis, que me viu fudido e disse:
- voce quer um emprego? eu lhe dou o meu.
- mas o que porra tu faz?, eu perguntei.
- nada. carimbo, preencho ofícios e uns gordos que não conheço assinam. mas você quer um emprego e eu quero ajudá-lo.
e assim ele fez. deixou o emprego e eu fiquei em seu lugar. claro que ele tinha alguns planos b. não era nenhum buda desapegado da vida; ele já queria largar o emprego e precisava de alguém pro lugar. mas ainda assim, vi valor no seu gesto. foi por causa desse gesto talvez trivial que consegui ver o azul do céu apos uma longa noite fria.

depois as desventuras políticas juvenis que nos aproximaram tratariam de nos afastar. e o calvário dele, diga-se de passagem, ainda estava para chegar, mas nenhum de nós sabíamos. não pude ajudá-lo, portanto. ingrato, eu? talvez. prefiro nao pensar nisso
para nao correr o risco de voltar dez anos no tempo. ele ja esta bem.

mas foi por não ter conseguido ajudá-lo que hoje me disponho,
com mais desprendimento, de maneira quase urgente,
a ajudar outras pessoas.
tenho menos a oferecer, mas, como ele,
nunca peço nada em troca.

acho que é assim que se aprende lições na vida.

ninguém precisa carregar culpa por nada, nem por si mesmo, nem por ninguém.
com taxi driver entendi isso um pouco melhor.



6 de fev. de 2016

Outro dia, fiquei pensando no mundo sem mim.
Há o mundo continuando a fazer o que faz.
E eu não estou lá. Muito estranho. Penso
no caminhão do lixo passando e levando o lixo
e eu não estou lá. Ou o jornal jogado no jardim
e eu não estou lá para pegá-lo. Impossível.

E pior, algum tempo depois de estar morto, vou ser
verdadeiramente descoberto. E todos aqueles
que tinham medo de mim ou me odiavam
vão subitamente me aceitar. Minhas palavras
vão estar em todos os lugares. Vão se formar
clubes e sociedades. Será nojento.
Será feito um filme sobre a minha vida.
Me farão muito mais corajoso e talentoso do que  sou.
Muito mais. Será suficiente
para fazer os deuses
vomitarem.

A raça humana exagera em tudo:
seus heróis, seus inimigos, sua importância...

BUKOWSKI



1 de fev. de 2016





"É um gozador, é um gozador", disse alguém, sobre mim, numa dessas festinhas informais de amigos de trabalho, num momento em que eu havia me retirado da mesa. Não sei se isso foi um elogio informal ou um deboche, mas o fato é que, feliz ou infelizmente, sim, sou mesmo...



15 de jan. de 2016

Lembro-me de quando, na aula de história, acho
o professor nos apareceu com um curta metragem de nome estranho
NÓS QUE AQUI ESTAMOS
POR VÓS ESPERAMOS
- era o nome que circundava na fachada de um cemitério de uma pacata cidade paulista.
Não esperava muita coisa,
mas vi, bastante.
Creio que foi a primeira vez que entendi o que era História.
Até então, tinha muitas explicações,
mas apenas muito vagas noções...








14 de jan. de 2016

Uma das partes legais de ser administrador de grupos no facebook onde todo mundo só sabe brigar um contra o outro é limpar a barra do seu adversário e ele vir com umas desculpas sinceras...



Cara... Sinceramente, você faz realmente o papel de Administrador de grupo... Escuta e sabe dialogar... Ao contrário a uns no grupo, que partem para agressão verbal... Continue assim...



12 de jan. de 2016

Nunca me preocupei em lances espirituais quando experimentava drogas. Meu negócio era somente fugir; não tinha espiritualidade, transcendência alguma, e nunca romantizei aquelas experiências; exceto quando estive no Vale do Amanhecer, há coisa de década atrás, e me abri para o que eles se propunham. A experiência que tive foi, sim, rica. Não sei o que envolveu, se envolveu Deus, se envolveu alguma comunhão, trajetos espirituais, coisa parecida. Mas envolveu algo que eu nunca havia vivenciado, e a lembrança de me ver em contato comigo mesmo, de subir aos céus, de chegar em uma nuvem e encontrar meu pai - fosse quem fosse, pois o rosto não era identificável, mas era meu pai, eu sabia naquele momento - e de perdoá-lo por ter-me posto no mundo sempre foi muito forte durante muitos anos. Chorava toda vez que lembrava. Agora não choro mais, nem sinto necessidade de novas buscas espirituais. Fiz o que tinha que fazer. Foi bom, e as lições já foram extraídas.



6 de jan. de 2016

evito reunir livros e cifrões, quase sempre a relação é assimétrica... é por isso que quase nunca compro livros em livrarias. ou compro em sebo a 10% disso que chamam de "valor de mercado" ou baixo na internet para ler no kindle ou no celular - tem sido muito melhor...


24 de dez. de 2015

O sol de cada manhã

Eu me lembro de uma vez imaginar minha vida, como ela seria, e como eu seria.
Eu podia me ver com todas aquelas qualidades fortes e positivas,
que as pessoas podem escolher dentro de uma sala.

Mas o tempo passou,
e algumas daquelas qualidades eu de fato alcancei.
Só que todas as possibilidades que eu encarei e as pessoas que eu queria ser
todas elas foram sendo reduzidas ano a ano, cada vez mais,
até finalmente serem reduzidas a apenas uma.
A quem eu sou.

E isso é quem eu sou.


21 de dez. de 2015

Essa semana ela disse algo assim:



Às vezes, tenho medo de dizer pras pessoas o quanto a gente é feliz.

 

17 de dez. de 2015

2001, quinze anos depois

 acho que vou rever todos os filmes que vi aos 15



23 de out. de 2015

esses caras

esses caras
pelo que passaram?
eles nunca enfrentaram
sozinhos
as ruas escuras
nunca levaram foras
constrangedores
nunca ficaram com vergonha
de sair de casa
simplesmente por ser quem são
esses caras
nunca tomaram porrada na rua
nunca foram xingados pelo chefe
nunca foram expulsos de bares
e de casas
esses caras
nunca perderam o último ônibus
nunca tiveram o carro enguiçado
no congestionamento
sob a chuva
sem ninguém
esses caras
nunca tiveram suas vidas em risco
nunca levaram choques
nunca foram ameaçados
esses caras
nunca precisaram sentar no meio-fio
para poder pensar
em que merda fariam
para se livrar de alguma situação
esses caras
nunca deram carona para estranhos
nunca comeram em refeitórios públicos
nunca chegaram suados
nos seus compromissos
nunca derramaram comida na blusa
seus cabelos
quando não estão bem penteados
estão calculadamente desgrenhados
esses caras
estão por aí
com vidas seguras
dentes sempre escovados
e tendo sempre um telefonema
à disposição
para resolver seus problemas
estão com seus cartões de crédito
suas garotas brancas
de pele de porcelana
estão com suas
camisas polo
seus sorrisos de cinema
estão falando alto
estão rindo
estão comendo nos food trucks
nas lanchonetes do momento
resenhando no verão
e nos carnavais
esses caras
nunca sentiram
coisas repulsivas
nunca precisaram
guardar segredos
nunca tentaram se matar
nunca ouviram música
bem baixinho
nunca beberam cerveja quente
sozinhos em casa
à meia noite
esses caras
não decepcionaram
no vestibular
nunca brocharam
nunca choraram
nunca chamaram
quem quer que fosse
sem obter resposta
esses caras
estão por aí
travestidos
bem vestidos
corrompidos
aplaudidos
para eles
o trânsito está livre
para os demais
resta aguardar
o sinal abrir
mas quem sabe
quando o verde irá pintar?


20 de out. de 2015

De um amigo

Brother você me ajuda muito com isso, eu queria agradecer profundamente a sua atenção e amizade nesses momentos, eu sei como é importante dar uma força visto que gosto de fazer o mesmo com os outros que estão ao meu redor.

12 de out. de 2015

7 de set. de 2015

- Como faço para gostar de feriados?
- Eu faço assim: olho a minha agenda, e quando me certifico de que não precisarei sair de casa para nada, já gostei!


5 de set. de 2015

A verdade é que eu nunca estive realmente preocupado com essas coisas. Governo, trabalho, vida acadêmica... nada, nada disso realmente ocupa o altar das minhas preocupações. No entanto, sou escravo de minhas escolhas. Quando comecei a me envolver com política, de certo modo apontei uma direção para a minha vida que não posso simplesmente ignorar. Daí nascem meus comentários em defesa do governo, em crítica às greves, em dedicação ao serviço profissional, em redação de artigos e dissertações... Por mim, estaria deitado no sofá por pelo menos cinco ou seis vezes mais tempo do que em geral eu fico, seja lendo qualquer bobagem (por diversão, não por necessidade) ou vendo TV livremente, sem a preocupação de emitir opinião, de combater fascistas na internet (e na vida real), de construir meus argumentos (e desconstruir outros) nem de me informar devidamente em relação a temas polêmicos do cotidiano.

O lado menos sufocante desse problema que estou fadado a carregar é que pelo menos meu trabalho (atual) não é estafante e a convivência é tranquila, meus objetos de estudo acadêmico são em geral coisas que me apetecem e a política é algo interessante, não à toa as pessoas odeiam - inclusive, foi quando me dei conta deste fato que comecei a achá-la realmente interessante (afinal, se as pessoas não gostam, algum valor deve ter).



3 de set. de 2015

O senso comum diz que amigos são poucos. Mas poucos quantos? E por que são poucos? Talvez porque muitos são apenas colegas. Mas o que diferencia colegas de amigos? A frequência com que nos vimos? O auxílio que prestam em momentos de dificuldade? Ora, há quem receba mais auxílio de um estranho do que de um conhecido. Será o estranho um amigo? Digamos que o estranho o auxilie num momento de dificuldade, mas não tá a fim de ouvir seus problemas pessoais. Tem-se que ele age mais por espírito humano do que por simpatia pessoal. Seria ele amigo? Eu teria experiências pessoais a relatar. Já tive amigos que me ofereceram cama, comida e dinheiro em tempos difíceis e não os vejo mais, nem sei por onde andam. Eu poderia citar um que inclusive deu o emprego dele pra mim - sim, ele ficou desempregado e me repassou o lugar dele no trabalho. Seria ele meu melhor amigo? Seria eu ingrato de não telefonar para ele no Natal? Eu também já ofereci ajuda a outras pessoas que provavelmente não se sentiriam a vontade comigo por nem mais trinta segundos. Seriam eles ingratos? Seria eu especial, um amigo incompreendido talvez? Diz-se também que a amizade não morre com a distância; contudo, só se pensa numa dimensão de distância, isto é, a distância espacial. E quando se trata de distância temporal? Quero dizer, o moleque que era meu amigo mais chegado no ensino médio, se eu o reencontro na rua, devo falar com ele com a mesma liberdade? Ou temos que apertar a mão e fazer menções meramente cortesas ao passado, com breve atualização da vida de cada um? Às vezes posso ser inconveniente, já que em geral meu comportamento com alguém é quase sempre o mesmo, ainda que durem anos desde nossa última conversa. Outro ponto: amigos são aqueles que nos falam verdades ou nos falam mentiras, isto é, são aqueles que dizem o que queremos ouvir ou o que precisamos ouvir? A resposta pode não ser tão simples quanto parece, já que todo mundo pensa em uma resposta, mas só confere valor real a outra.Sendo mais claro: os que mais reclamam sinceridade,
não a suportariam...

Não gosto muito do discurso conveniente de quem se diz alheio a rótulos. Mas eu acho que a ideia de amizade quase sempre está acompanhada de uma categorização que não se sustenta. Vivemos num mundo tão dinâmico, conhecemos tantas pessoas, estamos sempre envolvidos na vida de alguém - ainda que não nos apercebamos disso - que quase sempre penso que sou mais amigo da pessoa que conheci há duas semanas do que daquele que conheço há dez anos. Há exemplos que poderiam ser mais absurdos. Não raro em filas de banco ou hospitais públicos nós compartilhamos a reclamação pela demora com algum estranho e logo entabulamos conversa, que podem passear por temas diversos (futebol, política, dívidas, problemas familiares, dramas pessoais): frequentemente, nos abrimos mais para estranhos nessas filas do que para parceiros de longa data. Talvez não exista mesmo esse papo de mais ou menos amigo. Amizade, como amor, talvez não seja algo que exija reciprocidade. A maioria das pessoas que eu gosto de pensar que são meus amigos nem sabem que o são. Em outros casos, deve ser o contrário. No fundo, saber ou não saber não importa.




2 de set. de 2015

Perguntaram-me hoje o que me ressente. A bem da verdade, prefiro não alimentar ressentimentos, vez que considero isso algo unilateral e, no limite, acompanhado de um certo grau de covardia. Como a possibilidade de oferecer essa resposta não estava dada (era uma dessas dinâmicas de grupo que exigia participações pontuais, simplórias e pouco polêmicas), preferi dizer que me ressente a indiferença. Qualquer ato de indiferença - seja para um parente, um colega, ou mesmo para um estranho, como aqueles que nos aparecem nos semáforos pedindo para limpar nossos parabrisas - significa para mim uma séria manifestação de que algo está em falta... não somente educação.
Cara, foi mal, naquela bagunça da saída do filme te encontrei e tu comentou alguma coisa e eu falei qualquer outra em resposta, terminei nem falando direito contigo; fiquei mal com isso. De qualquer modo, eu realmente gostei também. Abraço.


1 de set. de 2015



Quando países socialistas, cometem erros, a culpa é sempre do socialismo, que não preconiza o bem estar de todos, que é antinatural, et cetera...

Quando países capitalistas os cometem, a culpa é da humanidade... "como sinto vergonha de ser humano"... "que espécie é essa que deixa um semelhante morrer?"... "como pode alguém não se sensibilizar com essa atrocidade?"...

A crise migratória não é uma crise, minha gente... é um projeto.

Mas deixa a política para depois...

26 de ago. de 2015

Mudar é algo tão terreno...
a maioria das pessoas está sempre presa à ideia de
mudar "pra melhor",
não aceitam permanecer na mesma condição,
deve ser um afã coletivo de si mesmo... é meio pecado uma pessoa se dizer satisfeita,
fugir dessa lógica de querer sempre melhorar,
porque "melhorar" é um conceito vazio, não existe definição clara do que é melhor ou pior...
de maneira que
a simples tentativa de melhorar
é dar um salto no escuro,
correndo sério risco de não encontrar nada além...

14 de ago. de 2015

Aqui estou eu, juntando esses livros comprados ao longo de anos fuçando sebos (pouquíssimos comprei em livrarias). Não sei quantos tenho, talvez uns 300 ou 400. Reuni uns vinte e a ideia é vendê-los. Há uma parte de mim que se vai com eles, sobretudo eu que sou tão apegado a objetos imateriais, talvez mais até do que garotas que passaram e amigos que não vejo mais - sempre tive mais apreço pelos livros, por um relógio que me acompanhou por anos, pela moto que me levou pra lugares diversos e por outras coisas banais como aneis e cadernos antigos. Eu sei, é muito egoísmo. Todos esses objetos, afinal, são uma extensão de mim mesmo. Logo eu, que sempre considerei o egoísmo um defeito sério, vergonhoso, talvez o maior defeito que carregamos. A bem da verdade, porém, eu nunca disse que é fácil não ser egoísta. Bom, decidi aceitar a união do útil e do agradável. Agora metade dos livros que preciso estão no meu kindle e esses da foto e outros tantos não são mais do que apenas vaidade pessoal expressa em estantes lotadas. A grande maioria deles representa mais o que eu fui do que o que eu quero ser. Sófocles, Marx, Dostoiévski, Goethe, Burroughs, Freud, Rimbaud, Erasmo, esses grandes companheiros, sujeitos que fizeram a minha cabeça, agora estão acompanhado de cifrões. Alguns ainda vou manter comigo, espero. Vou ganhar uns tantos centavos, pagar dívidas banais e dar um novo passo pra uma vida mais limpa; sem velharias ao meu redor, e valorizando mais os vivos do que os inanimados, sem entender que estes têm lá sua parcela de importância. Foi boa a travessia.

23 de jul. de 2015

Quem sou eu de fato?
Eu sou o que pede a benção à minha mãe ou o que a ignora?
Sou o namorado dedicado ou o desleixado?
Sou o que toca, escreve e compõe
ou o que pensa que toca, escreve e compõe?
Sou o torcedor fanático que assiste aos jogos pela TV
ou o fã que só assiste ao ídolo no DVD?
Sou o motociclista pacífico e camarada das estradas
ou o motorista que a todos xinga de termos homofóbicos no trânsito?
Sou o pesquisador que não pesquisa?
O enxadrista que não joga xadrez?
O atleta que nada pratica?
Quem sou eu, o leitor dos clássicos russos
ou o telespectador do Rodrigo Faro?
Quem sou eu, o trabalhador esforçado
ou aquele que procura atestados médicos?
Acaso sou o estudioso que os vizinhos e familiares pensam
ou o sujeito entediante e arrogante que alguns colegas logo percebem?
Será que eu sou o que fica correndo atrás de velhos amigos
ou o que procura de velhos amigos se afastar?
Sou o que adiciona estranhos no Facebook
ou o que bloqueia parentes?
Quem sou eu de fato?
O assunto principal
ou apenas um boato?

14 de jul. de 2015

Já desisti de ser
uma pessoa
só.

Já desisti de ser
uma multidão.

Já não ponho todas as fichas na mesa...

Agora,
jogo algumas no chão.

H. G. 

 

3 de jun. de 2015

18 de mai. de 2015

Fico procurando as outras pessoas ranzinzas, e parecem não existir mais. Todas apenas sorriem. Todas vêem esta minha foto e vêem apenas a pose, o cara relativamente charmoso, de óculos escuros e ar intimidador, quando não é isto que sou. A foto está aí por mera propaganda, da mesma forma que o nome do blog é uma antipropaganda... No final das contas, essa autoironia termina sendo a maior constante deste blog e da minha vida, porque a autoironia é a única coisa que faz com que nós, os chatos, suportemos a nós mesmos. Só não sei até quando.

1 de mai. de 2015

traduzindo buk

nós tínhamos peixes dourados
e todos eles nadavam em círculo
no aquário, sobre o balcão
que ficava perto das pesadas cortinas
que cobrem a janela
e minha mãe, sempre sorrindo,
queria que todos nós
fôssemos felizes,
dizendo-me
"seja feliz, Henry"
e ela estava certa:
é melhor ser feliz
se você puder,
mas meu pai continuava a bater nela e em mim
várias vezes
furioso
dentro de sua carcaça de 1 metro e oitenta
porque não conseguia entender
o que o estava atacando por dentro

minha mãe, um pobre peixe,
querendo ser feliz,
agredida duas ou três vezes por semana,
dizia-me para ser feliz:
"Henry, sorria!
Por que você nunca sorri?"

e então ela sorria, pra me mostrar como devia ser,
e era o sorriso mais triste que já vi

um dia, os peixes dourados morreram, todos os cinco,
e flutuavam sobre a água, deitados de lado,
seus olhos ainda abertos,
e quando meu pai chegou em casa,
jogou todos para o gato
que estava no chão da cozinha
e nós assistimos aquilo
enquanto
minha mãe sorria






23 de jan. de 2015

Se quer tirar mel, não espante a colmeia

A crítica é fútil porque coloca um homem na defensiva, e, usualmente, faz com que ele precise se esforçar para se justificar. A crítica é perigosa porque fere o precioso orgulho do indivíduo, alcança o seu senso de importância e gera o ressentimento. Através da crítica, não operamos nenhuma mudança duradoura, e amiúde ocorre o ressentimento.

Hans Selye, o notável psicólogo, disse que "com a mesma intensidade da sede que temos de aprovação, tememos a condenação". 

As críticas são como os pombos, sempre voltam aos pombais: tenhamos em mente que a pessoa a quem vamos criticar, provavelmente se justificará, e, por seu turno, nos condenará de volta, tendo ou não argumento. A repreensão, afinal, termina sempre em futilidade. Se eu e você quisermos evitar um ressentimento, sejamos indulgentes e não critiquemos, pois nada a justifica. Qualquer idiota pode criticar, repreender, condenar - a maioria dos idiotas faz isso.

Quando tratamos com pessoas, lembremo-nos sempre de que não estamos tratando com criaturas de lógica, e sim com criaturas emotivas, suscetíveis às observações que lhe possam ferir o orgulho e a validade.

Dale Carnegie



 

22 de jan. de 2015

PASSEI OS MELHORES ANOS DA MINHA VIDA PROPORCIONANDO OS MAIS VERDADEIROS PRAZERES AO POVO, AJUDANDO-O A DIVERTIR-SE, E TUDO O QUE CONSEGUI COM ESTE MEU GESTO FOI INSULTOS E A EXISTÊNCIA DE UM HOMEM CAÇADO.
Al Capone

 

19 de jan. de 2015

18 de jan. de 2015

Eu sempre fui avesso às mudanças. Na minha condição, só podia me sentir tranquilo quando as coisas estavam estáticas. Não acredito em mudança; como dizia um gaúcho muito tempo atrás, tudo o que se pode escolher na vida é irrelevante... só é importante na vida o que não se pode escolher: Jimi Hendrix não escolheu tocar guitarra, Pelé não escolheu jogar futebol, e as coisas se encaminharam para que isso acontecesse. A minha vida foi sempre isso, uma coisa não muito autônoma, se encaminhando sempre num certo sentido, e tudo o que eu gostava de fazer antes eu continuo gostando agora, no entanto as pessoas mudam - na minha vida costumam durar muito pouco tempo - e apenas todo o resto permanece, e eu percebo nele tudo que antes me inspirava, mas que já não me inspira mais .

Julho de 2010.

17 de jan. de 2015

Tarde demais pra voltar

Quando comecei a escrever, eu só queria isso: escrever. Exorcizar meus fantasmas, expor minha raiva do mundo e das pessoas. Por meio dos contos, encontrei pessoas (na verdade, elas me encontraram) que de alguma maneira se identificavam com as desgraças ali narradas, e por um bom tempo obtive rápido feedback para as coisas que eu produzia. Cada conto que eu criava, recebia comentários que me faziam crer que alguém tinha entendido algo que ali se passava. Pessoas que depois se interessavam em conhecer melhor a pessoa que escrevia aquilo, e assim fiz amigos com quem compartilhei boas conversas (que me fizeram crer que o problema não era as pessoas, mas a relação que eu mantinha com elas antes), e isso era bom...

Então disseram: escreva um livro. Você é um escritor, esquece esse negócio de escrever de graça em blogs.

Fui na onda: escrevi um livro.

Fiz lançamento, foi bem visitado, esgotei os estoques, fiz novos pedidos de livros à editora, esgotei de novo. Vendeu bem, como se nota.

Mas todos os que compraram nunca comentaram uma linha do que escrevi
 

Nunca conheci uma pessoa sequer com o livro.

E agora me vejo nesse momento:

escrevendo um segundo.


15 de jan. de 2015

Madrugada dessas, sonhei com mamãe, falecida há coisa de um ano e meio.

Eu entrava numa casa escura, abandonada. Alguém me acompanhava, não me lembro quem. Era uma casa de madeira, um sobrado. Lá dentro, a escuridão contrastava com as luzes do dia que entravam pelas frestas no teto ou nas janelas. Perguntei por mamãe e ela respondeu. Veio descendo as escadas e parou um pouco quando me viu, para dizer "tô aqui". Sorria, estava com aparência bem jovial, até óculos de sol usava.

Fiquei impressionado.

Como sabia que estava diante de um fantasma, e não da própria, esperava que essa aparição durasse um segundo, apenas. Mas ela veio até mim, conversamos animadamente. Como eu vi que aquele contato estava durando mais tempo do que duram as imagens de pessoas mortas, queria que os outros parentes a vissem. Disse então à pessoa que me acompanhava "chama lá todo mundo pra ver mamãe", e ela foi. No entanto, num lapso, mamãe sumiu, antes que alguém chegasse.

9 de jan. de 2015

PRATIQUE
A CARIDADE
SEM TER EM MENTE
NENHUMA CONCEPÇÃO
A RESPEITO
DA CARIDADE

PORQUE
A CARIDADE
NO FINAL DAS CONTAS
NÃO PASSA
DE UMA PALAVRA

Sutra do Diamante

8 de jan. de 2015

Saudades da vida em duas rodas

Daqui a algumas horas, quando o dia amanhecer, vou dar umas voltas por aí.




24 de dez. de 2014

Um homem toca acordeon
para um casal apaixonado

que se beija.
 

De dentro do ônibus,
alguém montado em sua solidão,
observa.
 

E, talvez,
mais solitário ainda,
alguém que não está
na foto,
registra.

15 de dez. de 2014

A senda reta dos oito caminhos

Compreensão correta
pensamento correto
fala correta
ação correta
meio de vida correto
esforço correto
consciência correta
concentração correta

4 de dez. de 2014


Durante muitos anos, mesmo entre pessoas de esquerda, havia um certo constrangimento em falar de Stálin, como se isso demonstrasse uma desatualização cultural e política lastimável.
Jamais me conformei com isso.
Sempre manifestei o meu apreço pelo grande herói de Stalingrado, a figura máxima da luta contra o nazismo.
Um dia, os que recusavam discutir o velho Stálin vão perceber como estavam enganados, iludidos pela campanha odiosa movida pelas forças mais reacionárias.



Oscar Niemeyer

24 de nov. de 2014

É realmente uma sensação diferente entrar na biblioteca e ir pra sessão de Física. Uma sensação nova, gostosa, deslumbrante até. Gostei muito dessas coisas todas - física, astronomia, geologia, etc. -, mas a escola e os vestibulares foram me jogando pra longe dessas coisas e me aproximando de outras - sociologia, filosofia, política -, que são riquíssimas também, mas que nunca conquistaram 100% de minha atenção. Talvez as primeiras também não conquistassem se eu tivesse me dedicado a elas. Mas ao menos a sensação de estudar e aprender coisas novas me estimula a voltar os olhos para as ciências exatas... as fórmulas já não assustam mais, como antes. Isso é bom.

12 de nov. de 2014

Quanta dor tu pode sentir num dia, quanto amor tu pode sentir no mesmo dia? A gente vive num mundo onde se vende dor e prazer ilimitados e achamos que se for pra colocar limite nisso estaremos deixando de ver e viver alguma coisa. Tá rolando um descompasso! Calma! A cada dia sua agonia e o seu prazer.

Gessinger, hoje

26 de out. de 2014

Há quase vinte anos, quando a novela Rei do Gado foi exibida a primeira vez, eu era um menino de cerca de dez anos. Não lembro em que casa morava na época, nem se morava com minha mãe ou minha avó. Mas lembro que acompanhei essa novela do princípio ao fim. Já me esqueci de praticamente tudo o que aconteceu nela, mas duas cenas me marcaram. Uma foi, no primeiro capítulo, a cena do filho abandonando o pai. A segunda cena me pareceu mais estranha. Nela, um senador discursava, indignado com os conflitos no campo, para um plenário vazio. Aquilo não me gerou impacto. Não chorei, não me choquei. Apenas observei aquilo procurando entender algo, sem conseguir. Apesar da aparente indiferença, me chamou muito a atenção. Me marcou por muito tempo. A novela foi exibida outra vez, mas eu já era um sujeito grandinho, metido a compromissos fora de casa, e não pude acompanhar. Surgiu a internet e o Youtube e por anos procurei esse capítulo, em vão. Certa vez, puseram a novela na íntegra na internet, mas encontrar essa cena entre muitos arquivos era verdadeira loteria. Mas esta noite, eis que decidi procurar mais uma vez, e lá está o discurso. Levemente diferente de como minha memória havia registrado - tanto o discurso como a cena -, pelo menos me sinto satisfeito por voltar àquela noite de 1996, quando a assisti pela primeira vez. Agora entendo melhor as contradições por trás do plenário vazio. E infelizmente, novamente não consigo me chocar com o que vejo.

a
Sonhei que havia perdido a hora do embarque no avião...

Acordei e voltei a dormir...


Sonhei que havia saído de ônibus do trabalho quando tinha ido de carro, e voltei a pé pro estacionamento...

Acordei e não dormi mais.


21 de out. de 2014

Alguns poucos livros mudaram a minha visão sobre o mundo. Este foi um deles. Eis suas primeiras linhas...

Em todos os tempos os grandes sábios sempre fizeram o mesmo juízo sobre a vida: ela não vale nada... Sempre e por toda parte se escutou o mesmo tom saindo de suas bocas. Um tom cheio de dúvidas, cheio de melancolia, cheio de cansaço da vida, um tom plenamente contrafeito frente a ela. O próprio Sócrates disse ao morrer: "viver significa estar há muito doente" (...) Em primeiro lugar, temos de observar mais de perto esses mais sábios de todos os tempos! Todos eles talvez não estivessem tão firmes sobre as pernas? Talvez estivessem atrasados? Cambaleantes? Décadents? Talvez a sabedoria apresente-se sobre a terra como um corvo, ao qual um pequeno odor de carniça entusiasma?...


Nietzsche, Crepúsculo dos Ídolos

15 de out. de 2014

Glória da Manhã

Não ouço, falo, sinto, penso quase nada
não vou ao caso de buscar outro refúgio
talvez o tempo faça com que isso me leve
a um voo intenso ou pular no mar profundo

Isso me afasta do que quis e do que pude
isso atesta então o riso que me falta
o riso e a festa já acabaram há um tempo
e só o vento me acoberta no momento

E o que era assim fácil demais
agora se esconde aqui no cais
e nesse mar um fardo total

me geram uma insônia fatal

A casa que eu construí e morei junto
de sons e atos que me eram tão escassos
me sinaliza o fim de um tempo quase mudo
em que meus gritos não saíam do meu mundo
(e agora sob novo afã eu sinto a glória da manhã)

E agora tudo me é acidental
mas sem abraços, coisa e tal
e mesmo sem gestos além

n
ão sei se já me sinto bem...

30 de set. de 2014

Lembro-me de quando fui com uns amigos pra uma casa de praia num carnaval, ainda nos anos 90. Éramos adolescentes, loucos para beber e arrumar umas garotas. Ao final, bebíamos muito pouco (não tínhamos dinheiro) e não conseguíamos nenhuma garota pra conta (não tínhamos atributos físicos nem lábia). Mas o rito era sempre o mesmo. Saíamos de casa às 22h (era a hora que começava a arruaça na cidadezinha, até amanhecer). Lá, ficávamos por umas duas horas juntos e aos poucos cada um ia para um lado. No dia seguinte, todos tinham histórias mirabolantes para contar; eu especialmente. Mas a verdade é que eu era o primeiro a voltar pra casa. Depois de dar umas voltas entre aquela multidão de bêbados e oferecidas, eu subia solitário a íngreme ladeira às duas da manhã, entrava em casa pela porta dos fundos e ia pra cama. Puxando na memória, a única coisa que consigo me lembrar dessas ocasiões é de uma noite em que eu me deitei e ouvi pela primeira vez a música Tempo Perdido, sendo tocada lá na praça central, bem longe de eu estava. Depois fui procurar essa música, que falava "somos tão jovens" e entendi o que queria dizer...

29 de set. de 2014

"Não me julguem por covarde ou corajoso"



28 de set. de 2014

É muito esquizofrênico ver as pessoas desejando feliz aniversário e fazendo votos de vida longa a uma pessoa que já morreu. Mas ninguém tem culpa: Adílson era isso aí, sujeito de gestos repentinos, descontraídos, às vezes grosseiros - porque era sincero demais. Sempre reclamou comigo que nunca o chamei para viajar de moto, um dos prazeres que tínhamos em comum, que tinha para ele o mesmo efeito que para mim - era terapia, meditação, salvação. Eu nunca expliquei que viajar de moto, para mim, só funcionava se fosse sozinho. Nada contra ele, um bom companheiro. Agora Adílson se foi, mais ou menos como os caras que idolatrava - Kurt, Jim, Raul. A tragédia provavelmente já dava seu tom não só nas suas viagens de moto, mas também nas bebedeiras sempre excessivas. Já não há mais nada a dizer...



A Twister agora está solitária

19 de set. de 2014

Esta semana, em um congresso de ciências sociais, após eu ter apresentado a minha comunicação, fui assim referenciado pelo professor que monitorava o grupo de trabalho: "temos aqui um marxista". Desconsiderando o fato de que me considero marxista como me considero newtoniano, fazia tempo que ninguém me identificava como tal. Só não sei se foi porque ele reconheceu no meu discurso algum marxismo ou porque ele precisava de algum rótulo para abrir seus comentários.

5 de ago. de 2014

Assim como não me lembro do primeiro beijo, não me lembro também qual foi meu primeiro trabalho. Como já fiz diversos "bicos" pra ganhar uns trocados até começar a trabalhar mais a sério, tudo isso foi se perdendo na mente. O fato é que agora estou iniciando num novo trabalho, e tenho sempre a mesma velha sensação de ter que aprender tudo. Mas dessa vez, as coisas parecem melhores. Estou sossegadamente trabalhando numa biblioteca. Já não tenho (mais) do que reclamar...

30 de jul. de 2014

Quase vinte

Hoje encontrei aquele velho amigo. Estava feliz. De quanto tempo atrás? Muitos anos, quase vinte. Era 1998 quando nos tornamos amigos e ele, que estudava em outra turma, me esperava para sairmos da escola juntos até a parada de ônibus, como forma de proteção contra os maus elementos que costumeiramente pegavam os alunos que saíam isolados para roubar pertences e meter uns tabefes, não necessariamente nessa ordem. Depois daquela fase, fizemos várias promessas de nos manter próximos, mas promessas não são nada diante das roletas a que a vida nos leva. O cidadão estava feliz por ter acabado de entrar na universidade - primeiro período de biomedicina. Fiquei feliz também. Pensei em perguntar pela sua irmã, com quem estudei, mais por educação que por interesse. Mas decidi deixar a prosa mais autêntica, restringindo-a a nós mesmos. O papo até que durou mais do que costumam durar meus encontros espontâneos. Geralmente, quando encontro conhecidos de outrora, nunca deixo a conversa demorar mais do que um ou dois minutos. Dessa vez, foram quase vinte.

24 de jul. de 2014

É muito provável que a verdadeira resposta para essa questão encontre-se, isto sim, na importação que fazemos do caso, entendendo que é no âmbito dessa ignorância que descobrimos o pútrido, o funéreo, a gilhotina que, ante nossas cabeças situada, esbanja seu recado advindo do mais impugnado leitor. Não me resta, para além disso, dissociações acerca de fantasmagóricas considerações paradoxais feitas sobre as premissas ora colocadas, talvez porque já estejamos nos despedindo, talvez porque já estejamos nos desesperando.

16 de jul. de 2014

Que os motores descansem... meu único desejo no momento é sair de casa de ônibus, a pé; não ter que me deparar com sinais vermelhos, sem saber se o verde em algum momento irá pintar...


1 de jul. de 2014

Diz uma fábula que a floresta estava incendiando e, enquanto fugia, o escorpião se deparou com um rio. Ao avistar uma rã que iria nadar até a outra margem, fez um pedido desesperado:
– Leva-me até a outra margem nas tuas costas!

A pobre rã respondeu
– Mas és venenoso!
– Não se preocupe com isso – replicou. – Se eu te picar morrerei também.

A rã gentilmente acatou o pedido. Quase no fim da trajetória, a pobre rã sente uma terrível dor devido a uma picada do escorpião, e exclama:
– Não é possível, acabei de salvar tua vida e tu me envenena.
O escorpião então lhe respondeu.
– Desculpe-me. É a minha natureza.

26 de jun. de 2014

Há uma maldade no tempo, nas coisas que ele destrói... como um enfraquecimento daquilo que se constrói
e não se sustenta mais.

22 de jun. de 2014

Minha mãe sempre diz que o futebol são apenas 22 caras correndo atrás de uma bola. Não sei se invejo ou se lamento um pensamento tão desprendido como esse, que não consegue enxergar alguns centímetros além. Eu, que conheci o futebol na fase de moleque mais por almanaques que por presenças no estádio... que conhecia mais as histórias adjacentes à bola (história de superação e fracasso de jogadores, momentos de simbiose entre torcida, nação e time em campo, etc), nunca consegui reduzir o jogo àquilo que o árbitro coloca na súmula. Gosto de pensar no que há ao redor daquilo. Eu me lembro: tinha 12 anos quando assisti ao jogo França x Paraguai, pela Copa de 98. A primeira era o time-sede, time de estrelas internacionais. O segundo era um time de fudidos, que falavam melhor o tupi-guarani do que o espanhol (não é brincadeira). Aquele jogo deveria ser o mais fácil da França; foi o mais difícil. Foram 90 minutos de heroismo dos paraguaios em segurar o resultado. O jogo acabou e começou mais 30 minutos de prorrogação. Arce estava exausto, mas continuava marcando o bravo lateral francês. Gamarra, coitado, quebrou o braço no jogo - mas fez questão de voltar ao campo de jogo. Eu, moleque, nunca presenciara tanto heroísmo. Foi somente depois de duas horas e meia de jogo que a França conseguiu marcar um gol, encerrando o jogo. O choro dos paraguaios não foi um choro midiático como o do garoto Neymar. Foram prantos, de quem sabia que carregava um orgulho nacional nas costas, a porra dum orgulho nacional que muitos minimizam como se tudo aquilo tivesse a importância que tem uma formiga pisada na calçada. Nunca vi o futebol da mesma forma depois daquele dia. Eu vi, ali, que valentia não era coisa do passado. Vi que diante das coisas artificiais, ainda há histórias, vivências, há sonhos. Não nego que o futebol hoje está financeirizado. Sei bem disso. Só não movimenta mais dinheiro no mundo do que as drogas e as armas. Mas a Copa do Mundo é daqueles raros momentos em que podemos ver esse algo mais. Povos que vêm acompanhar seus times. Jogadores que sabem que jogarão apenas duas ou três Copas na vida. É fácil jogar por jogar o Campeonato Brasileiro, quando um atleta sabe que no próximo ano terá outro, e depois mais outro, e assim por diante. Mas Copa do Mundo não; esse é um dos últimos trunfos do futebol jogado com amor à camisa. Nesse espetáculo, os times fabricados pode até existir, mas eles perdem primeiro. Vide a Espanha.

Muitos reclamam do patriotismo do brasileiro, que só se manifesta em tempo de Copa do Mundo. Eu prefiro que continue assim. O outro patriotismo que existe no nosso mundo é o que só se manifesta em tempo de guerra.

3 de jun. de 2014

Lá se foi o disco voador


Marinho, alegria do povo

2 de jun. de 2014

Naquele quarto onde até a respiração era difícil, eu não precisava de tormentos emocionais para completar o pacote. Sentia-me muito desolado. Bebi um pouco, mas mesmo aqueles tragos já não me aliviavam como noutros tempos. Não queria beber. Não queria comer ninguém. Não queria longas madrugadas nas ruas. Não queria dormir em muquifos, acordar em sarjetas, vomitar na beira do mar, com o sol nascendo e sem que eu o perceba. No sufoco daquelas paredes e daquele quarto sem luz, eu pensava que nada daquilo me representava, eu não era aquilo, eu não devia estar ali. Todas essas coisas eram o mesmo filme antigo que se repetia diariamente. Eu podia pensar em algumas maneiras de me matar, mas meu conflito na ocasião não era com a existência; era, isso sim, com o que eu havia feito dela.

30 de mai. de 2014

Recado de uma velha amiga, em julho de 2009

Ainda espero um dia poder ouvir a risada que nunca ouvi nesses anos todos

28 de mai. de 2014

Se eu fosse escrever somente estando triste,
eu escreveria todo dia,
toda hora,
a cada instante,
na cama, no ônibus,
na faculdade, na fila do banco,
na praia, à noite,
até mesmo na privada
como o sujo Enderby.
Confesso
que isto
não seria nada mau.

19 de mai. de 2014

Que tempos difíceis
eram aqueles:
ter a vontade
e a necessidade de viver
mas
não
a habilidade

(C.B.)

7 de mai. de 2014

esboço de letra incidental

As coisas que me lembro, que eu entendo, que de tanto persistirem já não valem quase nada para mim.
As coisas que eu penso que queria ter pra mim já não me serve para criar algum diálogo aqui

29 de abr. de 2014

Se você não entende Lacan (porque não há o que entender), acha que Latour, Capra e Boaventura têm que estudar muita física ainda, entende que a revolução de Guatarri não tem nada de molecular, se não tem nada a falar de Bourdieu e brindou no enterro de Derrida, junte-se a nós!


Descrição de uma comunidade que criei no orkut contra os pós-modernistas, anos atrás

23 de abr. de 2014

nayabirthday

O dia começa e a amada contabiliza um novo tempo,
são vinte anos
Aquela virada significativa, que vai além dos números.
Um novo tempo virá,
mas um novo tempo precisa ser construído.
Vamos em frente, juntos,
mãos à obra
- é tempo de realizar!

22 de abr. de 2014

De quando trabalhava na companhia de águas e esgotos, sinto especiais saudades dos intervalos... chegava às 8h, ia fazendo tudo... lá pelas 9h e pouco, dava uma saída, ia lá fora. Não saia do complexo; continuava lá entre galpões e escritórios. Mas eu sabia que tudo aquilo tava inserido num lugar gostoso de ficar... perto do morro, perto da praia. E eu ficava, em frente à porta que dava pro corredor que levaria à minha sala, tomando um leve banho de sol, e olhando pro céu, e sentindo-o. Eu me lembrava daquele céu, desde moleque, quando visitava a mesma companhia em que agora trabalhava - na época ia para jogar bola no clube ao lado. Infelizmente, onde trabalho hoje, intervalos não são proibidos, porém ninguém os aprecia; não têm a mesma graça...

20 de abr. de 2014

19 de abr. de 2014

Quando morre o Gabriel Garcia Marquez, todos se lembram do Macondo...

Quando morre o Nelson Mandela, todos o chamam de Madimba...

Mas o Gabriel sabia que tudo passaria, e, que, no final,

ninguém escreve ao coronel.

15 de abr. de 2014

Fazer mestrado numa área que gosto tem muitos prazeres. O principal é eu voltar a textos que li ainda adolescente, aos quais, na época, pouco ou nada entendia. Mesmo assim, naquelas manhãs e noites na biblioteca da escola, naquela virada dos anos noventa pros dois mil, eu me sentia um curioso saciado, detendo-me na leitura de sujeitos como Rousseau, ao qual volto, e me encontro novamente com o seu Discurso, com outros olhos - melhores olhos, talvez, mas também piores, se pensar bem. O importante não é o juízo que se faz disso; o importante é voltar, e eu gosto de voltar...