Uns amigos me pediram para eu analisar suas produções literárias.
Não fui muito generoso, mas eles entenderam.
Também espero que melhore. Anotei a sugestão de série. Consigo entender a angústia desse tipo de situação. Lembro que uma vez, quando comprei meu apto (2019), ainda tava com poucas coisas e uma menina com quem tava flertando meio que tava insistindo de ir me visitar (nos conhecíamos da universidade e descobrimos que éramos vizinhos nessa minha nova moradia). OK, vai ser massa, dá pra comer uma coisinha, vamo ver um filme, pode rolar algo etc, chamei ela e quando ela chegouuuuuuu... no exato instante que ela cruzou a porta do apartamento, entrando, eu senti uma puta sensação de arrependimento, uma sensação pesada, uma energia ruim. Talvez não fosse por ela, pensei que talvez fosse por mim, eu tava finalmente morando sozinho (já havia morado só antes mas era em kitnets fudidos, com pouca grana etc, e dessa vez eu tava com emprego, organizando apto do meu jeito etc) e ao invés de passar um tempo curtindo comigo mesmo me pareceu cair um forte sentimento de que eu estava deixando o espaço (e eu mesmo, quem sabe) ser "invadido" por um ente estranho a ele, ao deixar alguém entrar fácil assim, com poucos dias que eu morava ali, tendo acabado de limpar o fogão que recebi por doação e de ajeitar a mangueira do gás encanado, pronto para inaugurar o pegador de macarrão que ainda não tinha usado e que pretendia que fosse naquela noite... rapaz, foi tão sufocante que eu não sei se deixei transparecer; na prática, tentei fazer sala, ao menos manter a noite agradável ao menos para as conversas elementares, mas na primeira oportunidade que surgiu, eu, SEM PESTANEJAR, aproveitei para interromper abruptamente o ciclo esperado das coisas, fazendo com que no final nada rolasse, ela terminasse na casa dela e eu ali, no meu apartamento, sozinho, salvo - salvo de mim mesmo e salvo por mim mesmo, porque a gente é assim. Os bipolares sentem mais e não tem nem grau de comparação, mas eu também sinto, você também sente e se algumas pessoas parecem não sentir é porque se enclausuram tanto num tipo de personagem que enganam até a si próprios, e isso é mais triste do que aceitar a própria angústia de ser quem é em suas contradições. Enfim, sem firulas pseudopoéticas, e já tendo contado meu causo particular, retorno ao princípio da mensagem desejando novamente que melhore e que a noite, apesar dos percalços, tenha algo a se aproveitar. Não sou de postar minhas agruras existenciais no instagram (uso alguns blogs para isso desde o longínquo 2003), mas aprecio quem o faz porque gosto de quem mostra verdades e de quem não foge de si próprio. Aprecio quem sente. Não é por morbidez, evidentemente não me dá nenhum prazer, mas é como se em algum grau eu sentisse um pouco do que a pessoa sente e, sendo compartilhado, isso talvez diminua a dor de alguém, mesmo que nem ela própria perceba...
No livro A Insustentável Leveza do Ser, há aquele trecho em que Tomás acorda, vê que Teresa o deixou, fica lá dois dias felizão solteiro e depois bate uma saudade, uma bad pesada, um sentimento misericordioso, um desejo de reatar, e ele decide voltar, ultrapassando os tanques soviéticos, cruzando a fronteira da Suíça com a Tchevoslováquia para, no momento em que ela abriu a porta do apartamento, todo aquele sentimento dele derreter como se fosse água
Aquela sensação fatal de arrependimento, de pesar, de desgosto, de constrangimento, eu não quero sentir nunca na minha vida.
Há muito tempo pensava em fazer algo de diferente, algo "radical". Escalar um pico, alguém sugeriu, mas eu já o fiz; pegar a moto e sair rodando o Brasil, recomendou outra pessoa, só que eu também já havia feito isso. E embora essas e outras coisas sejam aventuras que pretendo voltar a viver, estava afim de algo diferente nesses últimos tempos.
Foi pensando nisso que, há um ano, me inscrevi num curso técnico de enfermagem. Taí uma louca aventura. Apliquei injeções, massageei um bocado de gente, me emburaquei nos corredores de um hospital caótico prestando todo tipo de auxílio a quem quer que fosse. Foi divertido.
MICHEL ONFRAY escreve, no prefácio autobiográfico de um de seus mais preciosos livros, que seu pai, solteiro por muito tempo, somente o teve aos 38 anos. Eu pensei que me identificaria, pelo caráter estimulante das ideias de Onfray, com ele próprio; mas o destino me obriga a me identificar com seu pai, vez que eu, também solteiro por muito tempo, assim como ele somente serei pai aos 38 anos - 5 de maio de 2024, se tudo der certo...
Marco Aurélio, como outros estoicos, gostam de enfatizar a coragem como um importante atributo do indivíduo. Pessoalmente, entendo a funcionalidade de reforçar essa conduta naqueles tempos; na contemporaneidade, não tenho certeza do quão útil ela é. Digo isso porque a coragem, em tempos de sociedade acelerada e hiperconsumista, com certa frequência se confunde com inconsequência, ausência de ponderação. Como Bardamu, de Céline, prefiro pensar a coragem como secundária, e uma certa covardia como virtude. Talvez não haja nada mais estoico do que isso. É claro, lembrando que, para Bardamu, a covardia não significa ausência de ação...
Eu me lembrei de uma noite na estrada... viajando de moto... um frio de correr os ossos, e eu desabrigado, pois perdera a jaqueta numa queda no estado anterior... eu estava em Minas, e como em todas as estradas daquele lugar, eu pilotava tendo ao meu lado um desfiladeiro... eu queria chegar na próxima cidade, mas a próxima cidade nunca chegava... o breu era tamanho que a luz das estrelas faziam parecer dia, vez que eram a única fonte de iluminação, além do farol de minha moto... mas o frio me matava, e eu começava a delirar... os reflexos começavam a me escapar, e por duas ou três vezes eu tive que frear bruscamente em curvas para não passar direto e rolar montanha abaixo...
Isso não foi tudo sobre essa noite...
Leon, eu nem sei como agradecer, viu? Você é um ser humano incrível, não só porque me socorre na hora das faltas de energia, mas porque nunca conheci alguém com tamanha boa vontade e atitude em ajudar ao próximo! Você não se diz cristão, mas a maioria de nós está longe de ter a mesma empatia e caridade, que são, inclusive, características que Cristo nos deixou como mandamento, que você demonstra pelos outros!
O mundo é naturalmente caótico ou ordenado?, eu me peguei com essa questão na cabeça.
"Tchau", ela me diz, apenas, ignorando que se dependesse de mim ficaríamos por mais tempo, passearíamos por mais tempo, conversaríamos por mais tempo, faríamos companhia um ao outro por mais tempo - ou talvez não ignore, talvez saiba que se dependesse de mim seria mesmo desse jeito, mas por isso ela não aceita (porque não quer que dependa de mim), então ela se vai e eu fico entre o lamento por terem acabado aqueles momentos em que estivemos juntos e o deleite por tê-los vivido, consolando-me em silêncio, enquanto a vejo se afastar pelo para-brisa embaçado ou pelo retrovisor sujo, quase segurando a respiração, contando cada um dos seus passos apressados e sem olhar para trás, até o momento em que ela se mistura às sombras e eu já não sei bem se ainda a tenho em vista ou se ela já escapuliu do cenário, e eu então coloco o cinto, que sempre tiro (pra quê?), ligo o carro, que sempre desligo (por quê?) e aumento o volume do som para afastar meus pensamentos e me distrair, porque voltar para casa sozinho é sempre algo tormentoso na minha cabeça, pois em todas as vezes eu fico rememorando cada segundo e imaginando como poderia ter sido diferente (mas que bom que não foi, quem sabe), desde o começo, quando nos encontramos, ou desde antes, quando saio de casa, até a última palavra que lhe digo, quase sempre o germe de uma sensação que me acompanhará por dias - uma sensação fatal de arrependimento, de pesar, de desgosto, de constrangimento, de penitência, de castigo, por acreditar que eu poderia ter dito muito mais do que apenas "tchau".
Mudando de assunto, vc foi meu professor de Geografia, Filosofia e Sociologia no Castro Alves. O melhor que eu tive diga-se de passagem. Depois que o senhor saiu eu não aprendi mais nada nessas matérias.